Aqui estou eu, depois de muito tempo, escrevendo. Mas não vou me desculpar por ficar tanto tempo sem escrever, primeiro porque ninguém se importa, segundo porque não tem nada mais chato do que ficar reclamando, terceiro porque não estou escrevendo aqui pra compensar. Estou escrevendo porque, apesar da preguiça, faz um tempo que eu to querendo escrever esse post e, me conhecendo, sei que não vou sossegar enquanto não escrever. Então, aqui vai.
Dia 26 de Dezembro de 2009. Era um dia normal. Eu sou um cara calmo num estado quase letárgico, em momentos de desespero ou extrema alegria, eu continuo impassível, como se nada estivesse acontecendo, mas, na noite do dia 26, eu sabia que tinha algo acontecendo. Abri a ultima garrafa de whisky fechada que eu tinha aqui, um Chivas 12 anos e bebi um primeiro gole respeitoso com meu pai e meus tios, as pessoas na companhia das quais eu estava. Havia algo no ar. Havia ansiedade.
Ouvindo Bob Dylan e Twisted Sister, comentando do show que passaram, nos despedimos. Meu tio foi para a sua casa, eu e meu pai fomos para a nossa. Conversamos sobre outras bandas e ouvimos outras músicas, mas, havia uma banda sobre a qual não conversávamos, havia palavras que não pronunciávamos. Dormimos, meu pai foi trabalhar no horário de sempre, durante a madrugada, eu fui dormir um pouco depois, e acordei bem tarde, lá pelas 13 horas. Naquela sexta feira, aquele dia 27, não havia aula nem nada, havia apenas quatro letras.
Usando a sacra indumentária, que de sacra não tem absolutamente nada, muito pelo contrário, eu, meu primo e meus irmãos buscamos meu pai no seu trabalho, encontramos meu tio no aeroporto e, juntos, esperamos o avião. Uma espera que não se alastrava, mas uma espera que exalava ansiedade. Não éramos os únicos com aquelas roupas, com aqueles símbolos... Outros também estavam por lá, que se olhavam mas não diziam nada, que sabiam que compartilhavam o mesmo destino. Havia eletricidade no ar, nos olhos, nos sorrisos, naquelas vestimentas profanas.
O avião chegou, decolou, sacolejou, aterrissou e estávamos lá, na esfumaçada e movimentada São Paulo que, pra um rapaz de Curitiba, causa um grande espanto, com seu tamanho aterrador. Houve ainda uma espera, algumas horas de sono para o meu pai, que tão pouco dormira durante a noite, um pouco de televisão para eu e meu irmão que compartilhou o quarto comigo, algumas mensagens trocadas com minha namorada e com meus amigos que já se encontravam lá, no local do que eu tanto ansiava estar. Sabia que ainda era cedo, e muito, mas eu queria estar lá. Queria ver os instrumentos de trabalho, o cenário! Queria ver os canhões e o famoso sino.... Nossa hora chegou um pouco depois, em dois táxis, que não eram só taxis brancos em meio a uma cidade cinza, não para nós. Eram as nossas carruagens para o local que, no momento em que cheguei, soube que se tratava de um inferno com lama e água ao invés de fogo.
O caminho foi longo e demorado, e não éramos nem de longe os únicos a segui-lo. Havia quase que um cortejo... Pessoas com camisas, sem camisas, bebendo seus whiskys e suas cervejas, com capas de chuva temendo-a e sem se importar com a chuva quase ácida da cidade tão pouco com o fogo do inferno. Chegamos. Andamos. Procuramos o portão, começou a chover, e não nos importamos. Com capas de chuva que nos tornavam um arremedo barato de pênis gigante entramos no lugar, no estádio, naquele lugar sagrado para muitos, para aquele que compartilhavam uma fé no domingo à tarde, e, naquele momento, ainda ansiavam por um titulo, mas isso era sobre fé e sobre domingo. Aquilo, era sobre êxtase e uma sexta feira. Era sobre ali, o momento, o aqui e o agora. Chegamos, morrendo de fome e gastamos 64 reais em 8 sanduíches que se constituíam por “pão, queijo, hambúrguer”. Foi a melhor refeição que já tivemos! Encontramos um lugar, bebemos nossas cervejas, mijamos, as luzes se apagaram e eu vislumbrei, naquele inferno molhado, milhares de chifres vermelhos que acendiam na arquibancada, como um natal que comemorava não o nascimento de um Messias... Mas o nascimento do Rock! Que, como esse mesmo Messias, renascia a cada dia... Mas, dessa vez, como num natal que só aconteceria uma vez em nossas vidas, era diferentes. Foi diferente. A banda de abertura chegou e foi embora, esperamos, cansados, pernas e colunas doendo... E, então, as luzes se apagaram novamente.
Um vídeo de abertura começou. Ele terminou.... A tela se abre e a porra de um vagão de locomotiva invade o palco, enquanto o som das guitarras e de Bryan Johnson cantando “Rock ‘n Roll Train” invade os nossos ouvidos... As luzes invadem nossos olhos e o chão foge dos nossos pés, ou talvez o contrário. Nós nos abraçamos, pulamos, gritamos e cantamos. É o êxtase. A eletricidade não está mais no ar, ela está dentro de nós, como aquele raio que separa o AC do DC, aquele raio que estava estampada no peito de todas as pessoas ali. O show avançava e eu tinha certeza de uma coisa: Eu iria chorar. Mas eu não chorei. No Rock não se chora, mesmo se estiver triste, mesmo se estiver feliz. No Rock se grita, e a única coisa que tem o direito de chorar em um show de Rock é uma guitarra. Mas, ela não chorou... Ela gritou, como todos nós! Com a próxima musica com Back in Black... E o show avançou.
O leitor que me perdoe, não é culpa da única cerveja que bebi, a culpa é da emoção.... Porque as memórias se difundem e me confundem, lembro-me de gritar quando ouvi Back in Black e cantar junto, lembro-me de, meu irmão me chamar para ir mais perto do palco... Eu disse que não, seria desconfortável e preferia ficar longe mas confortável, então, pensei comigo mesmo, quase filosofando “Foda-se!”. Era um show de uma vida, uma oportunidade de uma vida, e fomos para a frente... E ouvimos “Thunderstruck”, e apenas nesse momento desejei não estar tao perto daquelas pessoas, nesse momento desejei estar perto do meu pai, ver seu semblante e abraçá-lo, agradecer pelo momento que ele me proporcionou, pela vida que ele me deu, gritar “THUNDER!” junto dele no momento de sua música preferida daquela banda. Contudo, me contentei em gritar junto dos meus irmãos, abraçá-los e gritar enquanto o desgraçado escocês do Angus Young fazia a porcaria da sua SG berrar!!!
Lembro-me também de “T.N.T.”, aquela porcaria de locomotiva jorrando fogo! Era o fogo, o calor, a confusão, era o inferno... Era a porra de um show do AC/DC!!!! Depois veio “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”, “You Shook Me All Nigh”, entre outras, que não preciso nem citar aqui, leitor, porque você sabe, eles tocaram. E, aquela porra daquele sino começou a descer... E Bryan Johnson ‘saiu no pinote’, pulou, agarrou-o e balançou enquanto ouvíamos as primeiras notas de “Hell’s Bells”. E, realmente, eram os sinos do inferno... Porque era o barulho que fazíamos! Eufóricos e malucos, doidos por aquela banda... Não idolatrávamos aqueles velhos de 60 e tantos anos tocando guitarras num palco, imbecil é aquele que diz que idolatrávamos o diabo, não, idolatrávamos algo muito superior, idolatrávamos algo muito mais especial... a música, o ROCK!!!
E, então, o show ‘acabou’. Eles deixaram o palco, meu irmão pergunta, “Será se acabou?”, mesmo sabendo que não acabou. Mesmo sabendo que ainda falta algo... Todos nós sabíamos. Eu olho pro lado, sorrio e, vendo-os pela primeira vez, aponto, como uma criança “Olha ali, os canhões!!!”. Porque era o que faltava, a musica sobre a maldita estrada que cada um de nós, de cada canto desse país, tomou para chegar naquele estádio... E faltava ultima musica, faltava a nossa saudação, a nossa salva de tiros... Faltava a nossa oportunidade de, uma vez mais, saudarmo-nos! E eles nos proporcionaram aquela oportunidade... ao som de “Highway to Hell”, que, por muito tempo, foi minha música preferida da banda.... Mas se, enquanto a ouvia, gritava, pulava a adorava, ansiava ainda mais pela coisa que estava por vir, e por aquilo que chegou. No momento em que a música terminou, eu sabia o que estava por vir: “For those about to rock (We Salut You)”. O momento chegou, o pano que cobria os canhões foram tirados, três de cada lado do palco, seis em cima, ou quatro, não me recordo agora... Mas isso não importo! Eu, feito bobo, não resisti! Fiquei de costas para o palco e gritei para o meu irmão, entregando a câmera para ele “Tira uma foto minha com o canhao!!” E minha cara de bobo, alegre e estupefato está para sempre retratada, lado a lado com aquele maldito canhão, e não é que eu dei um pulo no momento
Hei, estou falando do show! O rock, continua... Pode ser que nunca mais eu veja um show do AC/DC, e, na verdade, com certeza nunca mais verei, é quase impossível que eu tenha a oportunidade novamente. Mas, aquele momento, é eterno. Eu guardo em minha mente e em meu coração, e compartilho com vocês, leitores. Obrigado.
















